terça-feira, 5 de abril de 2011

E chegô o frio véio... né???


Quanto tempo, em anos, se passa falando do tempo? Não das horas. Nem da fila. Mas do mais relativo dos tempos de todos os tempos: o clima?

- Será que chove?

Se você é curitibano, essa frase será proferida a qualquer momento, mesmo no dia com o mais cintilante dos céus azuis de maio.

Se você não é curitibano, preste atenção, também poderá acontecer contigo.

Resolvi perder o meu (e o seu) precioso tempo, para ir além. Vamos analisar esse renomado e infalível recurso de ¨puxar¨ conversa.

Por sinal, quanto menor a intimidade com o coitado do interlocutor, mais sentido faz falar sobre o tempo.

Duvida?

Fila de banco:

- Nossa! Que calor, né?
- Nem me fale! E o ar condicionado que não funciona?
- Pois é, né?! Incrível que quando faz frio, parece que querem congelar a gente.
- Nem me fale! O calor dos últimos dias está insuportável!
- Pois e, né?! Parece que o aquecimento global já chegou aqui no bairro...
- Nem me fale!

15 minutos depois...

- Você acredita que meu cunhado perdeu tudo na enchente do verão passado?!
- Pois é, né?! E dizem que o inverno vai ser pior que o anterior...
- Nem me fale!

Importante frisar: quando se trata de tempo, não há tempo que dê conta de tanto assunto. Inútil.

Também existem os ¨poetas do tempo¨. Dia desses, acompanhei o seguinte diálogo, realizado por telefone – sinta a profunidade do papo:

- Boa tarde doutor, tudo bem?
- Como vai? Como está? Tudo bem? Muito frio aí em Guarapuava, já?
- Pois é, doutor! O frio tá chegandinho... Até já tirei minhas blusas do guarda roupa...
- Imagino! Aí faz frio pra burro!
- Imagine só! Vocês aí em Curitiba estão no céu... Ou no inferno, onde é mais quente (muitos risos... forçados)
- (risos) Ou o contrário! Tipo o Inferno da ¨Divina Comédia¨, de Dante Alighieri, onde o inferno é congelado...
- ...
- (risos nervosos)
- Doutro, sobre aquele contrato...

Mas de todos, sem dúvida, os avós são os maiores conhecedores dos mistérios incautos do clima!

- Viu vó, não disse que aquelas nuvens iriam ¨dar a volta¨?
- Mas antes, antes, antes de antes de ontem a lua cheia estava envolta numa aura branca. Certamente choverá por 3 semanas seguidas...
- Pois é, né! Olha ali, essas nuvens fininhas e avermelhadas. Certeza que chove amanhã...
- Mas hoje em dia o tempo anda tão diferente...

E os viventes ficam ali, parados, divagando, numa confortabilíssima posição, olhando para o céu, com a boca aberta e o torcicolo trovejando. Até que vem o juízo final:

- Bom, amanhã a gente descobre...
- Pois é, nem me fale!

Quem trabalha em jornal, sabe que nem com meteorologistas da paixão a conversa rende:

- Simepar, bom dia!
- Bom dia, meu nome é Noé, do Jornal Naufrágios Diários, tudo bem?
- Tudo bom?
- Tudo. Estamos fazendo matéria sobre as últimas enchentes. É possível associá-las ao aquecimento global?
- (Suspiro longo e profundo) Não, não é possível. As enchentes das últimas semanas estão associadas à grande massa de ar estacionária sobre sua região. Em função de uma combinação de fatores, como o deslocamento para o Oceano Atlântico das massas de ar vindas do Sul e a ausência de umidade de ar na região Centro-Oeste, essa massa de ar está propiciando uma precipitação acima da média registrada para a atual época do ano, nessa região.
- Mas isso tem a ver com o aquecimento global?
- (Ssssssuspiro profundo) Não.
- Está relacionado a que, então?
- Ao que acabei de explicar antes.
- Ah, perfeitamente. Poderia repetir, por favor, pois achei que tinha a ver com o aquecimento global?

Mas de todas as divagações, uma única coisa é certa, aliás, duas:

Quem fala do tempo, pode estar entediado, pode estar interessado, mas nunca estará errado...

- E não é que chegô o véio e bom frio?! Decerto amanhã ¨géia¨...

segunda-feira, 7 de março de 2011

LA PRESUNTA ABUELITA

Na primeira aula de espanhol, la maestra nos passou o seguinte texto: ¨La Presunta Abuelita (A suposta vovozinha), um clássico texto para demonstração das aparentes semelhanças entre o português e espanhol, através dos chamados falsos congatos ou heterosemânticos.

Bom, aqui, trata-se sobretudo de um prato cheio para trocadilhos pobres, paupérrimos, pobrecitos e ¨madre mia de diós!¨.


Abaixo, a versão ¨madre mia de diós, nadie merece esto¨ (minha mãe de Deus, ninguém merece).

Para facilitar, os falsos cognatos estão em negrito, bem como suas respectivas traduções (entre parênteses, algumas explicações ajudam na compreensão).


Español
La Presunta Abuelita

Había una vez una niña que fue a pasear al  bosque. De repente se acordó de que no le había comprado ningún regalo a su abuelita. Pasó por un parque y arrancó unos lindos pimpollos rojos.


Cuando llegó al bosque vio una carpa entre los árboles y alrededor unos cachorros de león comiendo carne. El corazón le empezó a latir muy fuerte. En cuanto pasó, los leones se pararon y empezaron a caminar atrás de ella. Buscó algún sitio para refugiarse y no lo encontró. Eso le pareció espantoso.



A lo lejos vio un bulto que se movía y pensó que había alguien que la podría ayudar. Cuando se acercó vio un oso de espalda.

Se quedó en silencio un rato hasta que  el oso
desapareció y luego, como la noche llegaba, se decidió a prender fuego para cocinar un pastel de berro que sacó del bolso.

Empezó a preparar el estofado y lavó también unas ciruelas.
De repente apareció un hombre pelado con el saco lleno de polvo que le dijo si podía compartir la cena con él.



La niña, aunque muy asustada, le preguntó su apellido. Él le respondió que su apellido era
Gutiérrez, pero que era más conocido por el sobrenombre Pepe.

El señor le dijo que la salsa del estofado estaba exquisita aunque un poco salada.

El hombre le dio un vaso de vino y cuando ella se enderezó se sintió un poco mareada.


El señor Gutiérrez, al verla borracha, se ofreció a llevarla hasta la casa de su abuela.

Ella se peinó su largo pelo y, agarrados del brazo, se fueron rumbo a la casita del bosque.

Mientras caminaban vieron unas huellas que parecían de zorro que iban en dirección al
sótano de la casa. El olor de una rica salsa llegaba hasta la puerta. Al entrar tuvieron una mala impresión: la abuelita, de espalda, estaba borrando algo en una hoja, sentada frente al escritorio.


Con espanto vieron que bajo su saco asomaba una cola peluda. El hombre agarró una escoba y le pegó a la presunta abuela partiéndole una muela. La niña, al verse engañada por el lobo, quiso desquitarse aplicándole distintos golpes.


Entre tanto, la abuela que estaba amordazada, empezó a golpear la tapa del sótano para que la sacaran de allí. Al descubrir de dónde venían los golpes, consiguieron unas tenazas para poder abrir el cerrojo que estaba todo herrumbrado. Cuando la abuela salió, con la ropa toda sucia de polvo, llamaron a los guardas del bosque para contar todo lo que había sucedido.

Português
O presunto da Cadelinha

Era uma vez uma menina que foi passear ao bosque. De repente acordou, sem ter comprado nenhum mimo para sua cadelinha. Passou por uma praça e arrancou uns lindos anões de jardim vermelhos.

Quando chegou ao bosque, avistou uma carpa (debatendo-se) entre as árvores e, ao redor, uns cachorros (tipo) leões de chácara comendo carne. O seu coração emepenhou-se em latir forte (para os cães). Mesmo assim, quando passou, os leões de chácara pararam (de comer) e empenharam-se em segui-la. Procurou algum sítio para refugiar-se, mas não encontrou. Isso lhe pareceu espantoso!

Logo, viu um vulto que se mexia e pensou que havia alguém que poderia ajudá-la. Quando a cercaram (os cães), viu seu osso das costas (força de expressão: viu-se em apuros). Caiu em silêncio, feito rato, até que o osso (das costas, ou seja, o medo) desapareceu e logo, como a noite se gabava, decidiu aprender, à ferro e fogo, a cozinhar um pastel e, aos berros, atirou-o no bolso.

Empenhou-se a preparar um estofado e (aproveitando) lavou também as ceroulas.
Neste momento (que ela estava sem suas ceroulas), apareceu um homem pelado com o saco pequeno como de um polvo, o qual (o homem) lhe disse que queria compartilhar aquela cena com ela.

A menina, ainda que muito assustada, perguntou (ao menos) o seu apelido. E ele respondeu que seu apelido era ¨Gutiérrez, O Cachorro¨, mais conhecido pelo sobrenome ¨Pepe¨.

O senhor lhe disse que aquela ¨salsa¨ sobre o estofado estava muito esquisita, quase um ianque com pouca salada (força de expressão). O homem (então) lhe deu um vaso de vina e quando ela a ¨endereçou¨, sentiu-se um pouco marejada.

O senhor Gutierrez guardou a borracha (a vina mal-passada) e se ofereceu para levá-la até a casa de sua cadela.

Ela pendurou-se em seu largo pelo e, agarrados num abraço, foram-se até a casinha, no bosque.

Enquanto caminhavam, viram uns (zé) ruelas que pareciam o Zorro, e que estavam indo em direção ao sótão da casa. O odor de uma ¨salsa marica¨ (Ricky Martin?) chegava até a porta. Ao entrar, trupicaram numa mala de pressão (ou seja, uma ¨bomba¨): a cadelinha, com uma espada, estava se borrando há uma hora, sentada em frente ao escritório.

Com espanto, viram que sob a mala acenava uma coisa peluda. O homem agarrou uma escova (de chão) e pegou o presunto da falsa cadela, partindo-lhe um molar. A menina, ao ver-se enganada pelo lobo, quis divorciar-se, aplicando-lhe golpes distintos (ex: do baú, da barriga, etc).

Contudo, a cadela que continuava amordaçada, empenhou-se em golpear a tampa do sótão, pedindo pelo sacana dali. Ao descobrirem de onde vinham os golpes, conseguiram umas tranças para poder abrir o ferrolho que estava todo emperrado. Quando a cadela saltou, com uma roupa suicida, sobre o povo, chamaram os guardas do bosque para contar o que havia acontecido.


O texto com as corretas traduções para os ¨falsos cognatos¨ pode ser lido aqui.

Atenção: caro estudante de ensino médio e demais leitores, favor não utilizar a tradução deste blog para seu trabalho ¨ctrl c, ctrl v¨. Trata-se, evidentemente, de uma brincadeira com os falsos cognatos ("traduzido"apenas como se lê). Obrigado.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Amor telefônico

- Alô? Amor?
- Oi, tudo bem?
- Tudo bem, lindo, e você?
- Tudo... Por que tanta demora para atender esse maldito celular?
- Ai amor, desculpa! Estava no vibra, dentro da bolsa, até eu encontrar...
- Uhm... Sei...
- Sério amor!
- Mais uma dessa e não te ligo mais! Poxa, cinco tentativas pra falar contigo...
- Então não ligue, seu estúpido! Eu pedi para você me ligar, por acaso?
- Pois é... Não tinha pensado nisso... Por que será que eu te ligo?
- Pra me azucrinar sempre com a mesma coisa: por que não atende? Por que demora tanto? Por que estava ocupado?
- É isso mesmo, tem razão, vou parar de te azucrinar, então!
- Faça isso e...
- Tu, tu, tu, tu...

5 Minutos depois.

- Alô...
- Desculpa linda, é que eu estava com saudades... Custava atender mais rápido?
- Mas amor, eu já disse... Você sabe como é bolsa de mulher, até eu achar o bendito...
- Ah, não! Você insiste nessa história?
- Mas é a verdade, o que eu posso fazer?
- Deixa no volume alto...
- Aí chego no escritório, faz aquele escândalo... Até eu perceber que é meu celular que está tocando... Vai dar na mesma!
- Então coloca no bolso de trás da calça...
- Amor, já te falei. A última vez que fiz isso o celular caiu no vaso do banheiro!
- Serio?
- É, e já li também que dá estria no bumbum...
- Eu desisto! A partir de agora, se quiser falar comigo, me ligue!
- Grosso!
- Tu, tu, tu, tu...

3 Minutos depois...

- Al...
- Escuta aqui, Credislaine! Você não fale assim comigo!
- Espera aí! Não fale você assim comigo, seu grosso estúpido! Cavalo!
- Ah é? Cavalo? Então saiba que toda vez que você não atende ao celular, eu falo com outra mulher!!!
- O que?!
- É! É isso mesmo!
- Seu cafajeste! E me esfrega isso na cara?
- Esfrego sim! Aquilo sim é mulher! Sempre, sempre fala comigo, toda vez que você me deixa pendurado...
- Que?!
- Super simpática, voz suave, delicada...
- Então faça bom proveito!
- Tu, tu, tu, tu...

10 Segundos depois...

- Que m$%&, Epitáfio! Você não disse que não ia mais me ligar?
- Impressionante como você está atendendo rápido este celular, Credislaine...
- ...
- Amor, preciso te contar!
- Vá contar pra aquela diaba que te atende quando eu não posso...
- Tu, tu, tu, tu..

5 segundos...

- Que foi agora?!
- Amor, tenho uma ótima notícia!
- Ah, Epitáfio! Vá passar trote pra sua amante!
- Amante? Que amante?
- Que foi? Bateu a cabeça? Interferência do sinal na sua memória? Primeiro confessa e agora quer negar?
- Mas amor, eu não tenho amante nenhuma! Escuta, nós ganham...
- Epitáfio, acabou! Se liga! Nunca mais me liga, tá ligado?!
- Mas amor...
- Tu, tu, tu, tu..

5 Minutos depois.

- Tu... Tu... Tu... Tu... ¨A sua chamada está sendo encaminhada para a caixa de mensagens e estará sujeita a cobrança após o sinal...¨
- Não, agora não, querida...
- ¨Após o sinal, deixe o seu recado...Bip...¨
- Amor, ganhamos! Por favor, atenda, nós ganhamos! Na mega sena! É sério! Me liga logo amor!

10 segundos depois...

- Alô??? Amor?! É sério?? Me desculpa, lindo, eu...
- Hahahaha! Caiu nessa, linda? Não acredito...
- Tu, tu, tu, tu...

2 dias depois...

- Tu... Tu... Tu... Tu... ¨Sua chamada está sendo encaminhada para a caixa...¨
-  Santo pai, que voz irritante!
- ¨Após o sinal, deixe sua mensagem... Bip...¨
- Meu amor, por favor, só me responda uma coisa: pra que diabos você tem um CELULAR?!

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Das tripas coração: o jogo do “dobra dois”

Gênero: Auto-Ajuda à Auto-Ajuda
Classificação: imprópria para qualquer idade

Preço: impagável... Para todos os outros gêneros, basta uma vez o mastercard

(Segue abaixo um conto inédito, que relata a emocionante história de um ex-estagiário de carpinteiro que vira médico, reconhecido mundialmente. É também a primeira experiência (mal-sucedida) com  o gênero de "auto-ajuda" deste blog, mas Pablo Rabit certamente assinaria embaixo, do lado, em cima, onde houvesse cenoura).

Há muitos e muitos anos, em uma galáxia muito, muito distante, existia outro Planeta Terra. Nele viviam as mesmas lesmas, as mesmas pessoas, os mesmos animais, as mesmas plantas e, principalmente, os mesmos problemas da Terra situada à Via Láctea Nestle. Naquele planeta Azul, o cotidiano também era presente e as necessidades, futuras. Em uma vila, muito, muito distante, havia uma pequena empresa de carpintaria. O mestre carpinteiro, que aqui chamamos de empresário, era uma pessoa humana muito exigente (ou seja, um chefe). O aprendiz carpinteiro, que por estas bandas chamamos de estagiário estrupiado, era um rapaz muito obediente e dedicado (ou seja, um explorado pelo chefe).

Certo dia, a noite já se aproximava e, com ela, o por do sol. Quando o pequeno aprendiz acreditava já estar terminando seu expediente, eis que o chefe explorador lhe impôs uma árdua tarefa: concluir um armário gigante, do tamanho de três armários menores, para que fosse entregue antes do amanhecer ao prefeito, que por aqui chamamos de manda-chuva filho de uma égua.

Desolado, o estagiário carpinteiro argumentou que precisava ir para casa, pois tinha prova na faculdade, à noite. O chefe empresário então perguntou o que ele cursava, ao que o estrupiado aprendiz respondeu: “Meu pai nunca teve a oportunidade de estudar, tentou de tudo, até fazer das tripas coração, mas foi mal-sucedido e acabou falecendo. Por isso, estou cursando Medicina e descobrirei como fazer das tripas coração, sem morrer, para ganhar o Nobel de Medicina”.

Com lágrimas de crocodilo nos olhos, o chefe reconheceu o esforço do garoto. Era realmente um cara fora de série, o menino. Num surto de bondade, reconsiderou: “Tudo bem, imagino o quanto a faculdade é importante para você, portanto vou te pagar hora-extra, só por ficar a noite inteira trabalhando. E, por favor, nem precisa agradecer”. E lhe entregou uma nota de R$ 10,00.

O aprendiz considerou real a hipótese de acertar o martelo, que empunhava na mão direita, exatamente na nuca do chefe. Mas também reconsiderou. Pensou: “Meu pai jamais faria isso, ele faria das tripas coração”. Então, como um bom estagiário, fez o que lhe era pedido. Varou a noite serrando, pregando, lixando, esculpindo, pintando, envernizando, não necessariamente nesta ordem.

Quando o galo cantou pela primeira vez, estava pronto o armário do prefeito. Imponente e impressionantemente dentro do quadro. Como de costume, o chefe chegou atrasado ao gabinete. Quando finalmente adentrou o seu escritório, viu a nota de venda do armário sobre a mesa. Furioso, correu em direção ao maldito estagiário. “O que significa isso? Você vendou o armário do prefeito?”. Gago, o aprendiz tentou se explicar. “Vendi, sim, senhor. O senhor pode observar que a venda foi efetuada com sucesso, em dez vezes, sem....”. “O que? Você vendeu o armário caríssimo do prefeito e ainda parcelou em dez vezes?! Vou te picotar em dez vezes com serrote de tico-tico, seu moleque!”.

Sem mais, o estúpido chefe demitiu sumariamente o estagiário, que havia vendido o armário para a senhora Esmeringilda, da bodega em frente à carpintaria. Não cabia na cabeça do ilustre empresário o fato de o estagiário ter trabalhado a noite inteira para, depois, simplesmente vender o armário. E com qual permissão? E com que direito? O indignado chefe não entendia, não compreendia... Enquanto xingava com porcas e parafusos, apareceu um oficial de Justiça à sua frente. “Senhor, vim trazer-lhe esta ordem de despejo por falta de pagamento do aluguel e da conta de água”. Impávido, o outrora colosso chefe sentiu desmoronar sua grandeza por dentro. “Mas como? Eu paguei tudo o que devia”. “Desculpe senhor, ainda lhe faltam R$ 3.000,00”. “Tudo isso? É o valor de um armário enorme, do tamanho de três armários menores!”. “Sinto muito. O senhor tem dois dias. Se não pagar a dívida...”. O oficial se foi, sem completar a frase.

Aturdido, o chefe meia-boca juntou os cacos de sua faceta esfacelada e dirigiu-se, esquálido, até o porão imundo, que chama de escritório. Ao ligar a luz, levou um susto. Primeiro, pensou estar delirando. Depois, teve certeza. E por fim, abraçou seu delírio real: “Mas como pode? Um armário novo? Novinho? Prontinho para venda?”.

Segundos depois, o prefeito entra na sala. “Vim buscar minha preciosidade... É essa aqui?”, perguntou, apontando para o reluzente armário gigante, do tamanho de três menores. “Que beleza, hein? O senhor se superou, desta vez! Vou pegar desta verba da merenda escolar e te pagar à vista!”. O chefe não sabia o que pensar. Apenas agradeceu os R$ 3.500,00 pagos pelo prefeito. Ainda trêmulo, pegou seu celular e digitou os números do telefone móvel do estagiário. “Como você fez isso, moleque?”.

O estagiário estrupiado, aprendiz de carpinteiro, contou que quando era pequeno, seu pai havia lhe ensinado o truque do “dobra dois”. Era simples: “Se alguém te promete 1 Real para fazer alguma coisa, mas se essa coisa valeria o pagamento de 2 Reais, faça tão bem feito, para que valha 4 Reais. Foi o que eu fiz. Não que meu trabalho valesse tanto, mas...”. “Mas, nada! Venha aqui no escritório rapaz, preciso te pagar o que estou te devendo e ainda quero te contratar como meu sócio”. Mesmo sem entender muito bem como alguém pode “contratar” um sócio, o aprendiz foi correndo reconquistar seu emprego.

Chegando lá, o chefe apresentou a proposta: “A partir de hoje, você passa de aprendiz para sócio minoritário dessa empresa. De tudo que produzir, ficarás com 1%, descontado o imposto de renda retido em fonte, claro. Ah, e aqui está a parte que te cabe desta trabalheira toda, rapaz. Toma que é tudo seu”. E o empresário lhe pagou os R$ 30,00 que lhe faltavam e ainda pediu para que fosse à bodega da frente comprar uma cerveja para ele e, se o estagiário pagasse, poderia comprar uma coca, ou algo do gênero.

Semanas depois, a empresa faliu. Anos depois, o estagiário se formou. Décadas depois, ele virou capa de uma importante revista internacional, dedicada à publicação de grandes descobertas da Medicina. Lia-se na capa: “Ex-estagiário de carpinteiro, formado com louvor na Federal de Viçosa, morre durante tentativa de fazer das próprias tripas um coração. Temos a honra de relatar a história... Dele, cujo nome não foi revelado para evitar constrangimentos à família”. E, ao lado da chamada, um carimbo em letras vermelhas sentenciava: “Comprovado: metáforas não são cientificamente comprováveis”.

FIM.

Moral da "história" 1: o blog adianta que divertiu-se muito com esse negócio de escrever auto-ajuda. Parece ser tão fácil quanto ler um livro do gênero (e é muito mais lúdico).
Moral da “história” 2:  o blog conclui que está "perdendo de ganhar dinheiro", ao não contratar um estagiário qualquer para escrever essas coisas chamadas "textos de auto-ajuda". Contrato estagiários (pode ter nome ambíguo com mamíferos comedores de cenouras).
Moral da “história”3: o blog não tem a pretensão, somente a ambição de inventar o "auto-ajuda trocadilhex 1.0".
Moral da “história”3,5: gêneros literários à parte, tadinho do estagiário... Até para servir de crítica a alguma coisa, acaba sendo explorado.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Então é Natal e de mensagem chata também...

Natal é tempo de paz e alegria
E também de alguma hipocrisia
Pois recebemos mensagens de estranhos
Que agora mandam recados enfadonhos
Mas ao vivo não nos dão sequer bom dia

Natal é tempo de cultivar novas amizades
Certamente esse é meu maior engano
Devo amar a todos que me dizem verdades
Mas também os puxa-sacos com desejos profanos

Agradeço cada mensagem recebida
De quem me incluiu numa lista do Orkut
Seja da mais pura ou daquela melosidade descabida
Enviada por quem na verdade te vê como mamute

Tá, tudo bem, no Orkut minha foto é mais bonita
Não pareço ter engordado tanto quanto a antiga Chiquitita
Mas também não significa que preciso do seu carinho
Só deixe-me em paz e não me venha tocar o sininho
Como se fosse Papai Noel de shopping pousando pra fotinho

Natal é tempo do que mesmo? De amor e paz?
Mas preferiria que fosse assim o ano inteiro
Não traz alegria mensagem de gente incapaz
De demonstrar respeito de fevereiro a fevereiro

A mesma gente te julga “digno” de receber, eletronicamente
Mensagens impessoais “do fundo do seu coração”
Copiados da net, colados num cartão economicamente
Que pede apenas seu nome e o clique de um botão

Não recebo um abraço, felicidades ou agradecimento
O scrap mais parece um juramento de médico
Longo, chato, insosso, feito para qualquer evento
Recebido e deletado da minha vida com a mesma alegria
De uma fatura atrasada do meu cartão de crédito

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Sou Guarapuava, com muito orgulho!



Qual o tamanho do amor de uma torcida por seu time?

Um “troféu joinha” a quem inventar um aferidor deste sentimento, pois da mesma forma como seria a maior façanha da humanidade, também não deixaria de ser a coisa mais inútil de todos os tempos...

Ora, será que o amor por um time pode ser medido pela quantidade de apaixonados?
Em qualquer lugar, sim, pode.

O amor por um time pode ser medido pela fidelidade desses apaixonados?
Em qualquer lugar, e, principalmente, em Guarapuava, sim, pode.
2009 - Primeira vitória sobre Pato Branco na Chave Ouro (Foto: Klaus Pettinger)
O amor por uma equipe pode ser medido pela mobilização em torno de um objetivo comum?
Em Guarapuava, claro, sempre pode.

Mosaico na Final (Foto: Marcio Santos)

União de forças única (Foto: Marcio Santos)

O amor por esse esquadrão pode ser medido pelo(s) guerreiro(s) que se doou (doaram) eternamente por essa camisa?
Só em Guarapuava, aqui sim, pode.

Homenagem ao Guerreiro, morto em maço, defendendo as cores de Guarapuava (Foto: Marcio Santos)

O amor por esse quinteto (mais um) pode ser medido em decibéis?
Em Guarapuava? Ah, em Guarapuava, pode! E como pode!

O amor por esse símbolo pode ser medido pela freqüência com que arrepios sucedem uma simples lembrança daquele jogo, daquele lance, daquele grito de gol inesquecível?
Sim, mas não há outro lugar em que se possa.
Neto comemora 5o. gol a menos de 1min do fim (Foto: Marcio Santos)
O amor por esse quinteto (mais mil!) de guerreiros, que já têm o Joaquinzão como morada, é de alguma forma mensurável?
Até o Joaquinzão cala. Não há resposta.

Pois o amor por essa bandeira, vermelha e branca, flamulando ao som do orgulho e do amor guarapuavano é imensurável!
E o é, tão somente, em Guarapuava.

(Foto: Marcio Santos)
 Três letras, uma só paixão. Clube Atlético Deportivo, CAD! O “IF” eterno, o Guarapuava eterno, o Guerreiro, nosso Robson 18, eterno! 

Torcida reconhece a luta de cada jogador (Foto: Marcio Santos)

CAD: um luto, uma só luta: pelo inédito título do Campeonato Paranaense de Futsal Chave Ouro 2010.

E a resposta, há-la? Sim, há resposta!

O amor da mais apaixonada torcida de futsal do Brasil pode ser medido pelo que ela diz, pelo que mostra, pelo que gesticula, grita, berra, chora e, no final, sorri aliviada, de alma lavada, de cabeça erguida, de bandeira erguida, de punho erguido, de coro ensaiado, de choro ensaiado, de grito de guerra, a uma só voz, em três mil vozes, pois o amor dessa louca torcida é por Guarapuava, com muito orgulho, com muito amor!

Euforia da torcida ao apito final na vitória de virada por 5 a 4 (Foto: Marcio Santos)


Dedicado à apaixonadíssima torcida guarapuavana.

Exagero?
Pois veja isso, depois isso, aí issoisso e isso. E me diz?

P.S.: Os 3.ooo ingressos colocados à venda esgotaram-se em menos de 24 horas!!!

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

"Hundert anos Solidkeit" ou "Cem Jahre Einsadão"

Ao terminar, no ano passado, a leitura da última página de “Cem Ano de Solidão” (do genial Gabriel García Márquez), tive duas certezas sobre o livro: a) ele é literal e literariamente fantástico, e b) preciso lê-lo de novo.

Como numa álgebra perfeita de quem prefere as letras aos números, decidi experimentar, literal e matematicamente, por a + b, novamente o sabor surreal desse clássico.

Como objetivos vagos possuem dedicação vaga, resolvi ler o mesmo livro, com a mesma história, do mesmo autor, mas em outra língua: a alemã. Tal qual fizeram com José Arcadio Buendía (que decepção, mas não traduziram os nomes dos personagens para o Deutsch!), podem taxar-me de lunático, mas a experiência é interessante.


Mesmo não compreendendo 100% das palavras (nem Goethe entendia...), acabei entendendo outras que a tradução para o português dificultou.


Quanto li até agora? Incríveis 32 páginas, mas, calma. É alemão, meu Freund (Freund - amigo -, não Freud)! E como bem sabe o Bope, alemão é complexo...


A tradução, contudo, é de tal maneira perfeita que é mais agradável (e até fácil) ler Hundert Jahre Einsamkeit (a tradução do título) do que ler “Meteor”, a versão alemã do tal “Ponto de Impacto”, de Dan Brown.


Abaixo uma comparação de um trecho fabuloso (como sempre, literalmente) do livro em português e em alemão. A perfeição da tradução é tamanha que parece ter sido traduzido do português para o alemão (o que suponho, e espero, não ser o caso).


Cem anos de solidão

"Quando acordaram, já com o sol alto, ficaram pasmos de fascinação. Diante deles, rodeado de fetos e palmeiras, branco e empoeirado na silenciosa luz da manhã, estava um enorme galeão espanhol. Ligeiramente inclinado para estibordo, de sua mastreação intacta penduravam-se os fiapos esquálidos do velame, entre a enxárcia enfeitada de orquídeas. O casco, coberto por uma lisa couraça de caracas e musgo tenro, estava firmemente encravado em num chão de pedras...".

Hunder Jahre Einsamkeit
“Als sie bei hohem Sonnenstand erwachten, waren sie starr vor Staunen. Dicht vor ihnen, umwachsen von Farnen und Palmen, weiss und staubig im stillen Morgenlicht, lag eine riesige spanische Galeone. Sie war leicht nach Steuerbord geneigt, von ihren ungebrochenen Masten hing zwischen den orchideengeschmünkten Takelage das schmutzige Segelwerk. Der mit einem glatten Panzer aus versteinerten Saugfischen und weichen Moos überzogene Rumpf war fest in einen Steinboden gepflanzt...“

Logica e surpreendentemente, a versão alemã é um tanto mais comprida, mas até que não muito.


Estragando um pouco o espírito nerd-intelectual desse post, fiz outra comparação.


De duas situações muito comuns no cotidiano: o atendimento em um restaurante (qualquer um, fino, rotineiro ou bar) no Brasil e o mesmo atendimento, na Alemanha.


No Brasil, o garçom chega e pergunta, cordialmente sorridente:


- Boa noite. E então, já decidiu?
- Sim, me vê por favor um Schnitzel, com batatas fritas e salada.
- Pois não, e para beber?
- Uma coca, por favor. 

Na Alemanha, o garçom chega e pergunta cordialmente... cordial (versão traduzida seguida do original):


- Boa noite. O que posso servir/oferecer ao senhor hoje?
(Guten Abend. Was darf ich Ihnen heute anbieten?)
- Eu gostaria de (ou: eu estaria querendo) receber um Schnitzel, com batatas fritas e salada, por favor. (Ich würde gerne einen Schnitzel, mit Pomes und Salad haben, bitte.)
- Com gosto. E o que seria (ou: poderia ser) para beber? (Gerne. Und was darf es zum drinken sein?)
- Eu gostaria de receber um Coca, por favor. (Ich hätte gerne eine Cola, bitte.)

Não é aula de alemão, não. Frases completas, cordialidade à flor da pele e, da mesma forma, um atendimento excelente. Esses alemães... 


Como dizia um deles, um bem mediano, por sinal: "Quem não conhece líguas estrangeiras, não sabe nada da própria", Johann Wolfgang von Goethe.